Moradores de Havana afirmam que o país atravessa o período mais difícil das últimas décadas após o endurecimento do bloqueio energético imposto pel
Moradores de Havana afirmam que o país atravessa o período mais difícil das últimas décadas após o endurecimento do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos no fim de janeiro. A combinação de apagões prolongados, alta acelerada nos preços de alimentos, redução do transporte público e escassez de produtos básicos elevou a tensão social na ilha.
A nova rodada de restrições anunciada pelo presidente Donald Trump (Partido Republicano-EUA) incluiu ameaças de sanções a países que comercializem petróleo com Cuba e a manutenção da classificação da ilha como “ameaça incomum e extraordinária” à segurança norte-americana, citando o alinhamento político de Havana com Rússia, China e Irã.
Com cerca de 80% da matriz energética dependente de termelétricas movidas a combustível fóssil, a limitação no acesso ao petróleo atingiu em cheio o sistema elétrico cubano, já fragilizado pela pandemia e por restrições econômicas anteriores.
Apagões imprevisíveis e rotina paralisada
A arquiteta Ivón Rivas, moradora da capital, relata que os cortes de energia deixaram de ser programados e passaram a ocorrer de forma imprevisível. Segundo ela, se antes eram quatro ou cinco horas diárias sem eletricidade, agora há dias com até 12 horas consecutivas de interrupção.
A falta de energia impacta diretamente o abastecimento de água, o funcionamento de bancos, cartórios, redes de telefonia e internet. “Se não há eletricidade, nada funciona. É muito difícil organizar a vida”, afirma.
No interior do país, a situação é ainda mais crítica, com relatos de localidades que permanecem quase o dia inteiro sem luz.
Preços disparam e cesta básica encolhe
Após o endurecimento do bloqueio, moradores relatam que itens como arroz, óleo e carne de frango registraram aumentos expressivos em poucas semanas. O encarecimento atinge diretamente a população que depende da cesta básica subsidiada pelo Estado, cuja oferta, segundo relatos, vem sendo reduzida.
O economista aposentado Feliz Jorge Thompson avalia que o momento atual supera em gravidade o chamado “período especial” da década de 1990, quando a dissolução da União Soviética retirou de Cuba seus principais parceiros comerciais.
Para ele, além das dificuldades materiais, há hoje maior sensação de incerteza social, agravada pela perda de capacidade do Estado em manter políticas universais com o mesmo alcance de décadas anteriores.
Transporte e saúde pressionados
A escassez de combustível reduziu drasticamente a oferta de transporte público. Linhas urbanas operam com viagens limitadas e, em alguns casos, apenas um trajeto pela manhã e outro à tarde. No transporte intermunicipal, trens e ônibus passaram a circular com intervalos maiores.
Na saúde, a crise energética impacta desde o deslocamento de profissionais até o funcionamento regular de consultas. Segundo relatos, atendimentos eletivos foram reduzidos e emergências passaram a ser priorizadas. A falta de medicamentos também se agravou, obrigando parte da população a recorrer ao mercado paralelo ou à ajuda de familiares no exterior.
Pandemia e novas sanções ampliam pressão
Os entrevistados associam o agravamento da crise ao período pós-pandemia de covid-19, que afetou o turismo, principal fonte de divisas do país. As sanções impostas durante o primeiro mandato de Trump, mantidas posteriormente e agora ampliadas, também contribuíram para o atual cenário.
Além das restrições energéticas, o governo norte-americano endureceu regras relacionadas à exportação de serviços médicos cubanos, outra fonte relevante de receita para a ilha.
Resistência e incerteza
Apesar das dificuldades, moradores afirmam que não há mobilizações massivas nas ruas. Segundo Ivón, muitos jovens insatisfeitos buscam emigrar, enquanto a maioria da população concentra esforços na sobrevivência cotidiana.
Para o governo cubano, as medidas norte-americanas configuram política deliberada de asfixia econômica com objetivo de provocar mudança de regime. Já Washington sustenta que as sanções pressionam a liderança do país caribenho.
Sessenta e seis anos após o início do bloqueio econômico, Cuba volta ao centro da disputa geopolítica no continente, agora sob o peso de uma crise energética que atinge diretamente a vida diária de quase 11 milhões de habitantes.


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