Nas esquinas quentes de Simões Filho — onde a política se mistura com o café forte das manhãs e os cochichos da rádio peão — uma frase ecoa como u
Nas esquinas quentes de Simões Filho — onde a política se mistura com o café forte das manhãs e os cochichos da rádio peão — uma frase ecoa como um trovão silencioso: “Ninguém explica Deus.”
E talvez seja justamente aí que mora o maior conflito da cidade.
De um lado, púlpitos que se transformam em palanques. Do outro, palanques que se vestem de púlpito. No meio disso tudo, o povo — sempre o povo — tentando entender onde termina a fé e onde começa a política.
A presença do evangelho na política local não é novidade. Desde os tempos bíblicos, como bem lembram os mais atentos, figuras como Débora, Ester, José do Egito e José de Arimateia já transitavam entre o sagrado e o poder terreno. A diferença é que, por lá, a missão parecia clara. Por aqui… a coisa se embaralhou.
Em Simões Filho, nomes conhecidos ocupam esse cenário híbrido. O ex-prefeito e evangelista Diógenes Tolentino, com sua trajetória marcada por forte influência religiosa, caminha lado a lado com sua esposa, a deputada Kátia Oliveira, integrante de um grupo evangélico que ganhou espaço e voz no cenário político baiano.
Do outro lado do tabuleiro, o atual prefeito Devaldo Soares segue sua gestão sob a sombra — ou a bênção, dependendo do ponto de vista — da liderança espiritual do apóstolo Amarildo.
E assim, a cidade vai sendo governada entre orações e decisões administrativas, entre discursos de fé e cobranças populares.
Mas o problema nunca foi o evangelho.
O evangelho, em sua essência, fala de princípios, valores, justiça e verdade. O problema — como bem se percebe nas ruas, nas redes e nos corredores do poder — é quando homens falham tentando representar aquilo que não conseguem viver.
Porque política, como já dizia o velho sábio da praça, não define caráter. E nem a fé, por si só, garante ética.
Os fariseus continuam existindo — não mais com túnicas antigas, mas com cargos, mandatos e discursos bem ensaiados. E, como na antiguidade, seguem sendo os primeiros a usar a religião como instrumento de poder, e não como prática de vida.
Enquanto isso, a cidade segue polarizada. Não mais apenas entre esquerda e direita, mas entre “ungidos” e “criticados”, “irmãos” e “oposição”, “fé” e “gestão”.
E no meio dessa neura ideológica, a pergunta que ninguém consegue responder permanece no ar:
Se Deus não pode ser explicado… por que tantos insistem em usá-lo como argumento político?
Talvez porque seja mais fácil invocar o divino do que prestar contas ao humano.
E assim, entre cultos e sessões legislativas, entre promessas e profecias, Simões Filho segue seu caminho — não pela falta de fé, mas pela falta de coerência.
Porque no final das contas, meu caro leitor…
de crente a ateu, de pastor a vereador, de deputado a cidadão comum…
ninguém explica Deus — mas todo mundo será cobrado pelos seus atos.
“Porque todos devemos comparecer diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo.”
(2 Coríntios 5:10)


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