Dois acontecimentos recentes na fronteira da astronomia ganham destaque: a detecção de ondas de rádio vindas do cometa 3I/ATLAS e a descoberta de u
Dois acontecimentos recentes na fronteira da astronomia ganham destaque: a detecção de ondas de rádio vindas do cometa 3I/ATLAS e a descoberta de um gigantesco círculo de rádio com anel duplo, batizado de RAD J131346.9+500320. Ambos os achados reforçam a complexidade do universo e apontam para lacunas no nosso entendimento — tanto de corpos interestelares quanto de estruturas cósmicas massivas.
Sinais de rádio vindos do espaço
Astrônomos do radiotelescópio sul-africano South African Radio Astronomy Observatory, por meio da rede de antenas MeerKAT, detectaram, em 24 de outubro, linhas de absorção em 1 665 MHz e 1 667 MHz associadas ao cometa 3I/ATLAS.
Essas frequências correspondem à presença de radicais hidroxila (OH) — produto da sublimação de gelo de água comum em cometas. Apesar da especulação pública sobre origem artificial, os cientistas ressaltam que o sinal reforça o perfil natural do objeto.
O cometa 3I/ATLAS, que entrou em nosso sistema solar em trajetória hiperbólica e com origem interestelar, alcançou o periélio em 30 de outubro de 2025 a cerca de 1,36 UA do Sol.
De acordo com observações do Telescópio Espacial James Webb Space Telescope, o núcleo desse corpo foi alterado por bilhões de anos de radiação galáctica, formando uma crosta rica em CO₂ e sugerindo ter até 7 bilhões de anos.
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Esses dados tornam 3I/ATLAS uma das mais valiosas “amostras” de outro sistema estelar já analisadas, lançando luz sobre como gelo e poeira se comportam fora do nosso sistema.
A estrutura cósmica inscrita em rádio
Paralelamente, cientistas civis organizados no projeto RAD@home Astronomy Collaboratory — liderados pelo astrofísico indiano Ananda Hota — identificaram um objeto excepcional: RAD J131346.9+500320, um círculo de rádio com anel duplo, localizado a aproximadamente 7,5 bilhões de anos-luz da Terra. Trata-se do “círculo de rádio ímpar” mais distante já registrado, com dimensões estimadas em quase um milhão de anos-luz de diâmetro.
As chamadas “Odd Radio Circles” (ORCs) são fenômenos de plasma magnetizado detectáveis apenas em comprimentos de onda de rádio. Sua origem ainda é debatedora: podem ser vestígios de erupções massivas em galáxias centrais ou choques gerados por jatos de buracos negros. O novo objeto tem dois anéis visíveis — característica única até então detectada.
Por que importa
Ambas as descobertas ilustram a amplitude que a astronomia moderna alcança — dos corpos interestelares que cruzam nosso sistema até as estruturas gigantescas que se formaram em galáxias muito distantes. 3I/ATLAS permite investigar a química de outros sistemas estelares; já RAD J131346.9+500320 desafia a compreensão de eventos de escala galáctica.
A detecção de radio-ondas em 3I/ATLAS elimina grande parte das teorias de origem artificial e reforça que, mesmo vindo de fora, o objeto segue as leis da física dos cometas. Por outro lado, a existência de um anel duplo tão remoto indica que o universo reserva ainda muitos enigmas — e que colaborações entre cientistas civis e profissionais podem render descobertas de impacto.
Para 3I/ATLAS, a comunidade científica aguarda monitoramento contínuo, especialmente quando o objeto se afastar novamente do Sol. Novas missões como a Juno, que passará perto em março-2026, podem conduzir observações complementares em baixa frequência.
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No caso de RAD J131346.9+500320, o futuro inclui a entrada em operação do Square Kilometre Array (SKA), que permitirá observações mais detalhadas dessas ORCs e ajudará a mapear o papel de buracos negros e plasma na evolução das galáxias próximas e distantes.
Em ambos os casos, o que parecia ficção científica — um cometa de fora do sistema que emite sinais de rádio ou uma megassíntese de plasma visível apenas por ondas de rádio — se transforma em realidade científica, alimentando não apenas a curiosidade pública, mas o avanço dos modelos de como o universo se formou e evoluiu.


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