O Brasil entra na reta final de 2026 com o mercado financeiro mais atento aos riscos de uma forte desaceleração econômica em 2027, em um cenário ma
O Brasil entra na reta final de 2026 com o mercado financeiro mais atento aos riscos de uma forte desaceleração econômica em 2027, em um cenário marcado por juros elevados, endividamento, inadimplência e incertezas sobre o ajuste das contas públicas após as eleições.
O alerta ganhou força entre economistas e grandes instituições financeiras. Uma análise do UBS Global Wealth Management classificou o cenário como uma possível “crise contratada” para 2027 caso não haja uma mudança significativa na política fiscal. A avaliação considera a combinação entre dívida elevada, juros altos e dificuldades para implementar reformas.
O quadro também aparece nas projeções das empresas. Levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo mostra companhias e bancos projetando crescimento menor em 2027 e, em alguns casos, admitindo a possibilidade de recessão. O cenário é associado principalmente ao custo elevado do crédito e ao endividamento das famílias.
Selic continua em patamar elevado
Um dos principais fatores de preocupação é a taxa básica de juros. Em agosto, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic para 14% ao ano, mas deixou claro que a política monetária continua restritiva.
Na ata da reunião, o Banco Central afirmou que a atividade econômica apresenta sinais de moderação e destacou que as expectativas de inflação para 2026 e 2027 permanecem acima da meta. Para 2027, a projeção de inflação do cenário de referência do Copom é de 3,8%.
O próprio Banco Central também apontou que o enfraquecimento do esforço de reformas estruturais, a disciplina fiscal insuficiente e as dúvidas sobre a estabilização da dívida podem elevar a taxa de juros estrutural da economia, prejudicando o crescimento.
Ajuste fiscal pode chegar a R$ 500 bilhões
No campo fiscal, economistas avaliam que o próximo governo poderá enfrentar uma pressão significativa para reorganizar as contas públicas.
Em debate sobre política fiscal realizado na Expert XP 2026, o economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel de Barros, estimou que o esforço necessário a partir de 2027 poderia chegar a R$ 500 bilhões, equivalente a aproximadamente 4% do PIB.
O problema é também político. Medidas capazes de produzir um ajuste dessa magnitude podem envolver redução de despesas obrigatórias, revisão de benefícios, subsídios e outras mudanças com potencial de gerar resistência no Congresso e entre os eleitores.
A discussão ganha peso porque o próximo presidente assumirá o governo imediatamente após as eleições de 2026, com a necessidade de apresentar uma estratégia considerada crível para estabilizar a dívida e reduzir o prêmio de risco.
Dívida e juros pressionam crescimento
A combinação entre dívida pública elevada e juros altos pode criar um ciclo desfavorável para a economia.
Quando o mercado percebe maior risco fiscal, tende a exigir remuneração maior para financiar o governo. Isso contribui para manter elevada a curva de juros, dificultando a redução do custo de crédito para empresas e consumidores.
Economistas ouvidos em evento do Santander também destacaram a dívida pública brasileira, próxima de 80% do PIB, como uma das principais vulnerabilidades do país. Para os especialistas, uma sinalização clara de responsabilidade fiscal seria importante para reduzir o risco e abrir espaço para juros menores.
Crédito caro ameaça consumo e investimentos
A política monetária restritiva também afeta diretamente famílias e empresas.
Com juros elevados, financiamentos imobiliários, empréstimos pessoais e crédito corporativo ficam mais caros. Ao mesmo tempo, o aumento da inadimplência reduz a disposição dos bancos para ampliar a oferta de recursos.
Dados do Banco Central mostram que o saldo do crédito ampliado ao setor não financeiro alcançou R$ 21,7 trilhões em junho, equivalente a 164,3% do PIB.
Para as empresas, o ambiente de crédito mais caro pode significar adiamento de investimentos, redução de despesas e revisão de planos de expansão. Para as famílias, a consequência pode ser menor consumo, justamente um dos principais motores da atividade econômica.
Eleições de 2026 aumentam a incerteza
O calendário eleitoral acrescenta outro componente ao cenário. O mercado acompanha quais propostas econômicas serão apresentadas pelos candidatos à Presidência e, principalmente, como cada eventual governo pretende lidar com as despesas públicas e a trajetória da dívida.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou recentemente que, caso o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) conquiste um novo mandato, a intenção é manter o arcabouço fiscal, controlar despesas e ampliar esforços de arrecadação. Segundo ele, mudanças já realizadas deverão reduzir cerca de R$ 10 bilhões em despesas obrigatórias até 2027.
A questão fiscal, portanto, deverá ocupar espaço central no debate eleitoral, especialmente porque decisões tomadas no início do próximo mandato podem determinar a velocidade de queda dos juros e o comportamento do PIB.
Recessão ainda é risco, não cenário inevitável
Apesar dos alertas, a possibilidade de recessão em 2027 não significa que uma contração econômica já esteja definida.
O cenário-base do Banco Central ainda prevê crescimento da economia, embora em ritmo moderado. O que preocupa os analistas é a possibilidade de uma combinação adversa entre juros elevados por mais tempo, deterioração fiscal, aumento da inadimplência e perda de confiança.
O mercado também acompanha a evolução das projeções para o PIB. Dados recentes apontam expectativa de crescimento próximo de 2% em 2026 e de aproximadamente 1,5% em 2027, segundo levantamento citado pela Folha.
Assim, o principal alerta para 2027 não é necessariamente uma recessão já contratada, mas o risco de crescimento muito baixo ou até retração da atividade, caso o próximo governo não consiga combinar ajuste fiscal, controle da dívida e redução sustentável dos juros.
O que pode mudar o cenário
Para os economistas, uma melhora das expectativas dependerá principalmente da capacidade do próximo governo de apresentar um programa fiscal considerado confiável.
Um ajuste consistente poderia reduzir o prêmio de risco, melhorar as expectativas para a dívida e criar condições para uma trajetória de juros mais baixos. Sem essa sinalização, o mercado tende a manter uma postura mais defensiva.
O Banco Central também reforça que políticas fiscal e monetária coordenadas são importantes para reduzir o custo da desinflação e preservar a atividade econômica.


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