A presença de candidatos negros nas eleições brasileiras aumentou nos últimos anos, mas o crescimento ainda não se traduziu em uma representação pr
A presença de candidatos negros nas eleições brasileiras aumentou nos últimos anos, mas o crescimento ainda não se traduziu em uma representação proporcional entre os políticos eleitos. Dados de estudos do Núcleo de Estudos Raciais do Insper mostram que pretos e pardos passaram a ocupar mais espaço nas disputas eleitorais, enquanto os brancos continuam predominando entre os vencedores.
Segundo o levantamento, a participação de candidatos pretos e pardos nas eleições para o Congresso Nacional passou de 44% em 2014 para quase 51% em 2022. Entre os eleitos, porém, o avanço foi bem menor, de 24% para 32% no mesmo período. Já a participação de candidatos brancos eleitos caiu de 76% para 67%, mas eles ainda formam a maioria dos parlamentares.
O Núcleo de Estudos Raciais do Insper trabalha justamente com pesquisas empíricas sobre desigualdades raciais e representação política. Estudos anteriores do grupo já apontaram que candidatos brancos apresentam vantagem significativa nas chances de eleição para os Legislativos estaduais e federal.
Senado concentra uma das maiores diferenças
O contraste fica ainda mais evidente quando os dados são separados por Casa do Congresso. Em 2014, nenhum senador preto foi eleito, enquanto os brancos representavam 81,5% dos parlamentares.
O cenário mudou em 2022, quando três senadores pretos foram eleitos, o equivalente a 11,1% das 27 cadeiras que estavam em disputa. Os pesquisadores, no entanto, alertam que a pequena quantidade de vagas faz com que qualquer alteração no número absoluto produza grandes variações percentuais.
Mesmo com o avanço, os números mostram que a presença negra no Senado continua distante de uma representação equilibrada.
Nenhum estado atingiu equilíbrio entre eleitos
A desigualdade também aparece quando os resultados são analisados por estado. De acordo com o estudo, nenhum deles alcançou equilíbrio racial entre os deputados estaduais ou federais eleitos.
Na Câmara dos Deputados, Tocantins e Maranhão apresentaram evolução mais consistente na participação de parlamentares negros. Na direção oposta, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina chegaram a 2022 sem eleger nenhum deputado federal negro.
O resultado reforça uma diferença importante entre participar da eleição e conseguir transformar a candidatura em mandato. A quantidade de candidatos negros aumentou, mas fatores relacionados ao financiamento, estrutura de campanha, exposição eleitoral e condições de competição continuam influenciando o resultado.
Autodeclaração exige cautela na leitura dos dados
Os pesquisadores também fazem uma ressalva sobre a classificação racial utilizada nas estatísticas eleitorais. A autodeclaração pode sofrer alterações, especialmente no grupo de candidatos que se identificam como pardos, o que exige cautela na comparação entre diferentes eleições.
Ainda assim, o Insper aponta que as mudanças de classificação não eliminam o principal resultado observado nas pesquisas, a existência de uma sub-representação negra no sistema político brasileiro.
Para o debate eleitoral, os números mostram que aumentar a quantidade de candidaturas negras é apenas uma parte do problema. O desafio está também em garantir condições para que esses candidatos tenham chances reais de chegar aos cargos disputados.
A pesquisa do Insper coloca, portanto, um dado importante para as próximas eleições: o Brasil avançou na presença de pretos e pardos entre os candidatos, mas a distância entre quem disputa e quem efetivamente conquista um mandato continua significativa.


COMMENTS